quinta-feira, 17 de abril de 2008

A Arte de Ensinar


Essa semana tive uma prova cabeluda na Faculdade, daquelas que a gente não sabe se o desespero é maior antes (onde você tem a impressão que ela será da pesada), durante (depois que você descobre que ela veio realmente pra arrebentar) ou depois (na agonia de saber se tirou zero ou se acertou pelo menos uma questão que seja, o chamado "gol de honra"). Isso é corriqueiro em qualquer estabelecimento de ensino, mas a situação me chamou a atenção para um fato em particular: a prova era pura "decoreba". Me pergunto se, nos dias de hoje, onde somos bombardeados por mais informações do que temos capacidade de absorver, se ainda existe espaço para esse tipo de didática.

Acho que ensinar é algo nobre, quase sagrado. O professor é um tipo de profissional que deve ser muito respeitado, valorizado e incentivado, pois é no trabalho deles que se sustenta o nível educacional e cultural de uma nação. Entretanto, como acontece em qualquer profissão, temos o Joio em meio ao Trigo, ou seja, bons e maus profissionais. Ao longo da minha jornada educacional, principalmente na faculdade, me deparei com todo o tipo de professor que se possa imaginar: falastrões, humoristas, sérios, mal humorados, organizados, bagunçados, ditadores, democráticos, subjugados, malucos, turistas e etc. Quem estiver na faculdade e ler estas linhas vai entender os tipos que citei. Com base neles, fica claro que o estilo do professor se confunde com sua personalidade e, indo mais além, com certeza sofre influência dos professores que ele teve na sua jornada acadêmica. Esse é o ponto: pode-se ensinar hoje usando os mesmos métodos de 20 anos atrás? Na minha opinião, não.

Há 2 décadas atrás ainda não tinhamos a expansão tecnológica de hoje, com a Internet adentrando nos lares, nas escolas, nas empresas e etc. PC´s não estavam tão presentes em nossas vidas como hoje, isso sem falar em celulares, note books ou palm tops. Enfim, não existia a velocidade e volume de informações em circulação como hoje em dia. É praticamente impossível absorver tudo, o que nos força a ser seletivos, fazendo uma triagem daquilo que nos intererssa ou nos seja útil. E é aí que entra a "decoreba". Na minha opinião, ela é necessária para alguns casos, mas para outros, não. Cito os meus motivos:

- Minha prova era de Logística, sendo que faço Marketing. Faz parte da minha grade acadêmica, mas só trabalharei efetivamente com isso se optar por essa área. Se eu resolver trabalhar com Criação, por exemplo, passarei longe disso;

- Decoreba + Falta de Prática = Esquecimento. Decorar algo sem utiliza-lo, faltamente vai resultar em um conhecimento "temporário", que tempos depois se perderá. Isso quer dizer que a prática, por si só, não exige decoreba, pois ela coloca as informações "no sangue", por assim dizer. Você aprende e assimila fazendo.

Com base nestes dois argumentos, acho que é muito mais válido cobrar a compreensão de conceitos, do que enumerá-los exatamente como são. Não sei se estou sendo claro, mas acho que vou tirar uma nota baixa não porque eu não saiba sobre o assunto, mas porque não fui capaz de reproduzir conceitos, termos específicos, nomeclaturas em Inglês ao pé da letra. Exigir que o aluno tenha domínio de uma disciplina complexa numa situação em que talvez ela não lhe seja útil nem agora e nem no futuro não leva a lugar nenhum. Ao meu ver, parece fácil e cômodo a um professor avaliar o aluno com base em perguntas como "O que é xxxxx, diga quais são seus derivados, descreva-os e faça um resumo de todo o processo". Não seria mais válido fazer o aluno pensar, em vez apenas de lembrar de uma definição?

Só me resta agora aguardar, saber a nota e traçar uma estratégia para a próxima prova. Além disso, espero que o futuro me reserve professores que não pensem que minha cabeça é uma máquina fotográfica. Se acontecer, será que eu vou poder dizer que meu cartão de memória está cheio?

Um comentário:

Anônimo disse...

Esse texto tá muito bem escrito.
Acho que a questão é que as elites (que verdadeiramente mandam nesse país) não querem um povo que pense, pois é muito perigoso p/ elas (eles querem um empregado extremamente técnico e só). Afinal, a população pode começar a pensar em outras coisas, como mudar a atual situação do país.
Oldbanger
Abraços!