quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Existe Cura para a Falta de Educação?


Outro dia estava eu no ônibus, pela manhã, a caminho do trabalho. Saindo do ponto final, todos os lugares estavam ocupados, inclusive os preferenciais (que naquele dia não estavam todos ocupados por passageiros preferenciais). Entretanto, nada impede que estes sejam usados, desde que sejam gentilmente cedidos depois a quem precisa, certo? Nem tanto... A certa altura, pouco depois da saída do ponto final, uma mulher com criança de colo adentra ao veículo. Da subida no ônibus até a passagem dela na roleta, ninguém se coçou para levantar. Pelo contrário, todos pareciam sofrer de algum tipo de cegueira instantânea, onde ninguém via a situação que se desenhava, onde o final certamente se daria com alguém levantando e cedendo o lugar. Depois de alguns constrangedores minutos em que ninguém sequer levantava a cabeça – e o lugares preferenciais continuavam lá, todos ocupados - uma menina na minha frente se levantou e cedeu seu lugar. Minha indignação, que já era grande com a falta de respeito pelas regras sociais, ficou ainda maior quando a referida menina que foi a única a tomar a atitude correta, o fez mesmo estando cheia de bolsas. Com isso, cedi meu lugar a ela e fui em pé a viagem quase toda. Antes que alguém pergunte porque não dei eu mesmo o lugar à mulher com a criança, respondo: antes de bancar o “bom moço”, prefiro acreditar que todos devemos fazer nossa parte, todos devemos ser coerentes, inclusive os “cegos” que estavam sentados nos lugares preferenciais, destinado às pessoas como a mãe e seu filho de colo. Ao meu ver, se antecipar a estas pessoas é encorajar o comportamento errôneo e cínico delas. Além disso, tenho para mim a premissa que mesmo com o transporte cheio e apenas estes lugares vagos, não os utilizo, simplesmente porque alguém que precisará deles mais do que eu, certamente vai utilizá-los.

De um modo geral, ando pasmo com a falta de educação das pessoas. Pior, que tem se mostrado presente em todos os lugares e em todas as situações possíveis. Nas ruas, nos edifícios, nos coletivos, nos elevadores, nas filas, na hora pedir, na hora de informar, na hora de comer, enfim... Trânsito então – que renderia um texto a parte - nem se fala... Palavras ou expressões como “obrigado”, “por favor”, “com licença”, “bom dia”, “boa tarde/noite” cada vez caem mais em desuso... Chega a ser impressionante como está enraizado na cabeça do povo como algumas atitudes absurdas são consideradas normais pela grande maioria. Mas o porquê as coisas chegaram a esse ponto? Acho que uma lembrança minha dos tempos de faculdade pode ajudar na resposta.

Certa vez, durante uma aula de Marketing, onde o tópico era publicidade e propaganda, fiz o seguinte questionamento: “Por que razão a Coca Cola precisa fazer propaganda? Afinal, todo mundo gosta e sempre toma esse refrigerante!”. A resposta foi interessante: “Apesar da concorrência com outros produtos – sucos por exemplo – é a própria necessidade de manter-se em evidência no mercado o fator primordial para essa necessidade. Melhor dizendo, é a própria dinâmica da vida: pessoas nascem, vivem e morrem. Novas gerações chegam e precisam ser informadas sobre a existência do produto, uma vez que pais e mães cada vez mais focam em alimentos saudáveis para os filhos e podem retirá-lo do cardápio da família. Os novos consumidores demandam mais serem “bombardeados” com mídia justamente por terem sido criados onde o refrigerante não era de consumo rotineiro, foi reduzido gradativamente ou até mesmo não consumido.

Trazendo este case para o tópico educação, a analogia é simples: ao que parece, a educação é o refrigerante que está sendo retirado do consumo das novas gerações. E quando se fala em educação, a família é a base da formação de caráter de qualquer indivíduo. Mesmo que não houvessem provas e mais provas dessa afirmação, científicas até, basta olhar para quem tem filhos pequenos. As crianças, quando da fase de formação, são espelhos dos pais em quase todas as suas atitudes. Numa necessidade de se sentir incluída e aceita, a criança procura imitar o que pai e mãe fazem. Com base nisso, pais e mães são agentes fomentadores dos conceitos educacionais que serão tão importantes na fase adulta. Daí a constatação óbvia: aqueles sentados no banco preferencial e sem o bom senso de cedê-los a quem precisava deles, com certeza não tiveram estes conceitos imputados ao longo de sua criação e formação como indivíduos, ou se o tiveram, foi de maneira incompleta ou deturpada.
É claro que nosso país atravessa uma crise sem precedentes nos dias de hoje, mas não é de agora que o conceito de família vem sofrendo fortes abalos. O próprio desequilíbrio de nossa sociedade, com grande desigualdade social, desemprego, falta de escolas, hospitais, moradias contribui de forma significativa para o esfacelamento da família. A impossibilidade de chefe de família de sustentar e manter sua família pode facilmente separar a todos e quebrar este processo de formação do indivíduo. Crianças longe da escola, trabalhando desde muito cedo ou migrando para a marginalidade fatalmente não terão acesso à devida formação de caráter proporcionada pelo convívio familiar tradicional. Mas não é somente nas classes mais desfavorecidas que isso ocorre. Mesmo com acesso a instrução e inclusão social, a própria dinâmica da família tem se “deformado” por diversas razões. Menciono aquela que talvez seja a mais moderna das razões: a Internet, com seu potencial de isolamento – hoje não é raro ver famílias inteiras com a cara no celular nos momentos de convívio – ou também no seu poder informativo, onde pais e mães precisam fazer uma triagem do que pode ou não ser visto pelos seus filhos. Muitas das vezes, a perda desse controle cria situações difíceis de administrar.

Outro ponto essencial de se mencionar talvez seja o senso de impunidade que nosso país tem. É notório que leis e poderes não são eficazes na manutenção dos critérios que baseiam uma sociedade justa para todos. É como se ninguém tivesse o compromisso de fazer o sistema funcionar, respeitasse seus limites e critérios de punição. Por que respeitar algo que não funciona? Por conta disso, o descaso com as regras de convivência social extrapola o âmbito legal, uma vez que se cumprir a lei não é necessário, por que respeitar uma simples placa que diz que se deve ceder meu lugar?

É óbvio que meus argumentos aqui são superficiais frente a um assunto extremamente complexo, com fatores adicionais não mencionados, como religião e preconceito, para citar dois exemplos apenas. O importante era deixar claro que cada vez mais nos importamos mais com o “eu” em detrimento do “nós”. As pessoas não atentam para os reflexos de suas ações, a menos que haja algum impacto para si próprio. Se não, seguem em frente, esquecendo do próximo e tornando a nossa convivência coletiva insuportável, exatamente como ela é hoje.

Um comentário:

Paulo Monteiro disse...

É tudo verdade, infelizmente. Ótimo texto!